quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Superego

     Um arranjo produtivo de letras graficamente mais expressivas do que os dígrafos que voam rentes pelo espaço fonético do planeta oral. Assim, penso que o enredo das histórias dos humanos de carne e osso, mais carne do que osso, será sempre contado nas 1ª e 3ª pessoas do singular. À luz do foco Alma, as personagens Alegria, Sofrimento, Angústia, Felicidade, Fortuna e Amor são casadas entre si e convivem obedecendo às regras da Gramática da Lingua da Vida - e cometem incesto, claro.
     Mas quando o Homem é abençoado pela formosura convence quase sempre, ou sempre convence pelos olhos os olhos de quem não pôde decifrar as entrelinhas do foco. A dona da história mesmo é também a personagem de regência nominal das relações: o Amor ao conviver com os picos de irritação das outras personagens se enfeia. Se bem que, em certos parágrafos, roupa nova, um bom perfume, música e companhia apraz são objetos intransitivos que embelezam, aliviam e cerram os por vir insofridos raios do sol de verão e Eu, Tu e Eles ficamos belos.
     Porém há tantas sílabas tônicas nos diálogos do Amor quanto átonas nas sentenças dos figurantes derivados do polissêmico Sofrimento. Aqui não tem jeito, a Fortuna deforma a formosura do sujeito. A crônica da vida caminha para um desfecho que aponta para o futuro. O que o brio costura, a tesoura do tempo vai retalhando: o manto da loucura. A nota final da redação promete lograr para o desatino. Os profetas anunciam que acima da média.
     Imenso.
     Tão longo quanto a homeopatia das madrugadas. Eu me trato. Tu te tratas. Ele se trata ainda que submetido à abstinência dos Mutantes. Adepto do gerúndio: perdendo a força, entrando pelo ralo depressivo. Angústia dosada em gotas. O que faz mal também faz bem quando algemado à expectativa de alimentar a vida com o uníssono amor da carne e da alma. Mas a vida é homicida e adora assassinar a esperança com tiros de pré-conceitos. Pará além do amor antídoto há a bifurcação: viver ou não viver.
     E aquele manto da loucura retalhado pela tesoura do tempo desaparece como se nunca houvesse tecido. Lembrar-me-ei que amor é sobrando o que tenho apenas. Enquanto não durmo, a beleza esvai-se em rugas e olheiras. Concluo que as horas são inimigas, porém provedoras de espírito.

Republicado. Original de abril de 2007

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