sexta-feira, 1 de junho de 2007

Paraíso Tropical - capítulo II: Preste atenção: sou uma pombajira numa bolha flutuante a espera de uma bala perdida



Se a neurose de existir já não me deixa dormir, numa madrugada de chuva não durmo também porque não quero mais. Eu gosto de apreciar o som, o cheiro e a verticalidade da água.

Enquanto isso, aproveito para fumar o último cigarro da madrugada. Antes do desespero, agora sei, que pelo menos assim, parte do paladar estará recuperado pela manhã, ou pela hora qualquer que despertar.

Enquanto espero, vou escrevendo em papel e sem cores. Porque se for reparar no vinho metal, o sono partirá para sempre. Há muito, aliás, e até a contragosto, a vida tem me obrigado a prestar pouca ou menos atenção no vinho metal. Digo a contragosto porque vinho, por natureza, é sedutor.

A matéria mais difícil é o amor. Que seja ou pareça cristão, surreal, impossível, mas não sei amar aos finais de semana, nem a deus-dará. Exercito o amor diariamente e não me satisfaço. Amor é para ver e ouvir de hora em hora. Amor é para dormir todas as noites.

No rádio, entre uma melodia desgraçada e outra, meu bem você me dá água na boca. Esse rio, ainda estou muito longe, ou sempre estarei, de atravessá-lo. Pode ser que, por um lado, o amor seja alienante: eu crio, eu vivo, eu me apego? Sei que tem sido questão verborrágica de sobrevivência. Do outro lado existe um mundo imenso, infinito, quase inatingível. Eu faço a viagem de Dante pelo inferno para chegar ao paraíso. Mas penso com que roupa atravessarei o caminho?

Resta-me ternura. Eu só tenho ternura. Ternura que me atrevo a achar que sei, quando, na verdade, roubo citações alheias de Freud para crer que ternura é sinônimo de amor. Ternura é a sublimação da energia. É estar. Pairado com rubor efusivo.

É, e existe ainda a picada da fidelidade. O que fazer com ela, como cobrar uma realidade inventada? Fundamental mesmo é ter saúde. Porque é preciso tê-la para suportar o nó do amor. Ah! vida nó cego. Amor é para rir. Porque imaginamos e esperamos transformá-lo em sangue do meu sangue. E quem vai acreditar nisso se minha cabeça é so minha?

A Terra é de Satanás, mas para não morrer de fome eu como feijão com arroz como se fosse um príncipe. E não me afobo não que nada deve ser pra já. Paralisia, contemplação do bem e do mal. Vejo pessoas ao meu lado chorar e pedir por amor. Eu choro pelo excesso e por não saber o que fazer com ele. Até que a morte nos separe e amém.

Um comentário:

Anônimo disse...

Vicent,
verdadeiramente,és um tecelão da palavra.Da boa palavra.O texto está simplesmente divino.O amor nos faz assim...humanos.
Parabéns.
Lady Vania.