sábado, 28 de abril de 2007

clarice


29/05/2006 12:14:54
Estava lendo "A Paixão Segundo G.H." , de Clarice Lispector, quando parei para lavar a louça, acredite, dar forma a desordem, e fui ate a pia de lavar roupa para pegar sabão. Lá,de súbito fui tomado pelo susto, uma lagartixa, branca quase transparente, morta, afogada nas aguas da chuva. " Não compreendo o que vi. E nem mesmo sei o que vi, já que meus olhos terminaram não se diferenciando da coisa vista. Só por um inesperado tremor de linhas, só por uma anomalia na continuidade ininterrupta de minha civilização, é que por um átimo experimentei a vivificadora morte. A fina morte que me fez manusear o proibido tecido da vida...eu sou a barata, sou minha perna, sou meus cabelos, sou o trecho de luz mais branca no reboco da parede - sou cada pedaço infernal de mim - a vida em mim é tao insistente que se me partirem, como a uma lagartixa, os pedaços continuarão estremecendo e se mexendo...de nascer ate morrer é o que eu me chamo de 'humano', e nunca propriamente morrerei." Para acrescentar ao perfil: “de morrer, sim, eu sabia, pois morrer é o futuro e é imaginável, e de imaginar eu sempre tivera tempo. Mas o instante, o instante este – a atualidade – isto não é imaginável...” sei apenas que a atualidade é desagradável. A urgência do tempo, do viver hoje, me é dada não como uma natural perspectiva de morte, suave, não é burguesa, que tem tempo de beber do Nada da água que alimenta a alma – apesar da parcimoniosa quantidade de alcoólatras do amor nesse caso – e também apesar da imundície dos mal entendidos, não tenho tempo para apreciações. E PENSEI QUE , NO FUNDO, EU NÃO ENTENDIA O AMOR, MAS DESCOBRI QUE O AMOR TAMBÉM NÃO ME ENTENDIA. A sensação é equivocada – a vida corre o risco de ser quase sempre um equivoco. Não, há ainda a alegria, ela é precisa, atemporal. Mas ate lá continuo sem ter tempo para a vaidade do ciúme. Recorrer hoje à vaidade é nutrir ate. E antes que se pense a vaidade como diabólica, lembre-se que ela é descendente da matéria de que é feito o amor. A sensação é de arraso, o arraso da dor da surra no pau de sebo da propriedade. É preciso muita sombra e água fresca, ainda que a custo, para matar a sede da paciência do tempo de tolerância. Amanha mais um dia para esperar nova e alvina alteração de perfil... “o sal de lagrimas nos teus olhos era meu amor por ti...ao meu beijo tua vida mais profundamente insípida me era dada, e beijar teu rosto era insosso e ocupado trabalho paciente de amor...”

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