sábado, 28 de abril de 2007

Esse nosso estranho amor

Samuel houvera construído uma barreira de desejos do tamanho dele. Uma montanha de embrutecimento devoradora, amiúde e transponível. Bastava o que e quando ele julgasse necessário para rompê-la. Samuel, porém, não sabia o que e quando era certo. Dos estilhaços, sobrara vida nova. Ele cria.

De amor, ou do que ele esperava que fosse o amor sobreviveu.

Júlia era um dos fluídos de Samuel. Um amor latente, desprotegido, guardado na caixa do desconhecido. Nesta, Samuel, ruborizado, costumava depositar esperanças. Júlia, impiedosa, não continha o dom de dividir Samuel em pedaços. Na caixa do amor conviviam, obviamente, as dores e as alegrias: havia a carência-suprida-agora para onde fluía o amor imediato.

A menina de perfume doce que afasta a saudade alegre, que cobre de verniz os amores impossuídos, reparte-se em alma de muitas amantes. Ela despertava o medo, acendia a sandice.
Nas matinês, ocupadas pela mulher amante de face mil, a luz emanava da mãe dos que brigam na arena da liberdade, a bela que criou asas, fugiu do paraíso e pariu filhos batizados de demônios. À deusa pagã, Samuel se dirigia durante a aurora:

== Os sentidos indicam que é preciso ser profissional com as emoções. Quero que honestidade seja suficiente para ver o mar ao nascer do sol. Mas sei, antes, regras de jogo serão absorvidas e eu terei que aplicar xeque-mate. Dizem que os que realizam, embora sofregamente, o que gostam estão mais próximos do sucesso. Hoje consumimos substantivos próprios e gravamos nomes sem conteúdo.

Na inquieta manhã, Júlia silenciava. A mente da musa escondia as respostas que as estações protegem da ansiedade.

Quando se dispunha a levantar, Samuel era fisgado pela luxúria. O frio aguçava as intenções de um coração voluptuoso. Mas os beijos malogravam. A ternura se dispersava no abismo da falta de compromisso. Samuel dedicava retóricas egocêntricas, carregadas de intensidade.

== Tenho sensações conflituosas. Não vejo-me purificando os pecados num purgatório dantesco por causa da lascívia e sequer posso dizer-te da profundidade de minha dúvida. Prezo pelo poder dessa liberdade, porém confesso que o charme, não raro, sufoca e abandona os objetivos agonizantes. Em troca das palavras, deixo-te sentir ora a aderência, ora a repulsa de meu corpo. Os devaneios reprimidos e desnudos carimbam-nos de maturidade, receio, tesão. Sua alma precisa entender que meu espírito é par de muitos. Permita-me ejacular sem culpa.

Júlia não temia histórias nunca escritas e aceitava o amor descabido porque notívaga como era, reproduzia-o. Seu cheiro de erva revelava que amor não tem tempo nem domínio.
== Sua agonia é filha de sua preguiça Samuel – dizia Júlia. É incompreensível como podes carregar tamanho desequilíbrio. Tu precisas remediar, porque sei que existe um ponto de entrada em teus beijos flamíferos. Ah! Essa imensidão vazia que te enclausura. Estes teus olhos caídos que clamam por mim seriam erguidos se tu assumisses a luz retumbante de tua alma.

== Se eu pudesse entender, não hesitaria. A masturbação que ocupa minhas mãos agora impede-me de sair e pensar. Os sonhos so me chegam pela manhã e são arrebatadores. Desperto com o coração pulsante, fugindo pelas costelas. Ele dispara os devaneios impertinentes da madrugada, imagens de tormento, palavras que não alcanço, assim como não compreendo meu raciocínio. Eu não sei sobre o que descrevo. Porém independente da clareza ou incoerência dos meus prantos, o alívio acaricia-me quando posso confessar-me. Ditas ou escritas, minhas palavras quando chegam a tua consciência levam com elas meus tormentos e abandonam-me nu. Sinto-me feliz e livre ao repudiar meus pensamentos. Antes de teu veredicto, creia que assim meu coração esvazia-se para amanhecer carregado de declarações de amor por ti.

Julia apavorou-se impressionada com tamanho coração ardil. Para ela, o amor de Samuel transcendia a natureza deles. E continuou.

== Tua sorte Samuel está no teu coração sereno. A vida não deixar-te-á sozinho porque não temes dividir a dor

==Decerto, menina minha, não precisas sofrer o castigo vertiginoso de beber da loucura minha. Por obra da natureza ofereço-te os desejos que possuo e é tudo que há de ser dado como recompensa. Não posso pedir-te ou dar-te mais do que a vida fez-me.

Depois de mira-lo o quanto quis, Júlia franziu a testa e disparou inconformada:

== Eu sei que o sossego abra a porta para tua entrada quando tu satisfazes os teus desejos simples de compartilhar o desjejum à sombra de minha companhia e quando não tens dúvida que os votos cristãos estão assegurados por mim. Sinto tua esquizofrênica dor moradora desse mundo paralelo da (in) fidelidade que lutas para abandonar. Complexa parece, mas a equação do amor que emanas será solucionada se tu tiveres força para assumir que amas por demais. Creio que no teu peito vagueia meu sangue, embora atormente-me saber de teu corpo vagando pelo mundo. A quem pertence o fardo da decisão?

Conta a história que Samuel atarantado decidiu que não saberia responder e antes que o sono fosse embora novamente, resolveu largar o cigarro, guardar o espelho e deitar.

== Quiçá minha agonia tenha nascido hoje que exalamos cheiro. Amanha somos carne apodrecida sob a terra. Ainda não compreendo a dor e sequer a urgência divina.

E continuava em pensamentos que mais pareciam disparates. Decerto, não sentia a extremidade das decisões que tomava. Cortar o cabelo, por exemplo, era o experimento direto do efeito do tempo sobre a forma da atuação. Samuel depois de ficar careca, começava assim:


== não havia me dado conta dos riscos que corria. Eu queria mais. Era o vazio de atuar. Percebi, no instante apenas, que ela me veria antes e depois das cenas: a lua me levou ate as outras e as horas me abduziram para outro plano. Vi tudo, nada, além e aquém. Aqueles copos e aquelas latas quentes e geladas, não esquecendo dos cigarros, deixaram-me transtornadamente bem. Demasiado torpe, dominado e dominando poluições prodigiosas, ordenei os acessos de popularidade, traguei os surtos de vaidade e dancei sob um sereno de beijos.

Samuel em tempo recente decidiu aderir ao que faltava-lhe a escrita. Acatou de um amigo a descrição da angustia que fulminava-o. No auge da segunda adolescência, ele compreendeu que não morrerá por isso, talvez de cirrose, mas não de amor.

Um comentário:

Freddy Simões disse...

Amigo Vicent,

Há certo tempo, tive um lampejo de inspiração e redigi um texto para você, tratando de sua verve poética. Tentei captar um pouco de sua personalidade, fundamentado em alguns de seus escritos. Lembro-me de que o o encaminhei ao seu e-mail, mas não tenho certeza se foi recebido. Resolvi, então, publicá-lo no meu blog, Café Cultural. O texto se chama "A um amigo poeta". Dê uma conferida lá! Dentro em breve, farei comentários específicos acerca de seu novo blog, OK?

Abraço!